O empirismo de David Hume

Empirismo – É a corrente filosófica que, de uma forma geral, considera que a experiência sensível é o fundamento e o limite dos nossos conhecimentos.

Impressões e ideias são o conteúdo do conhecimento

Para David Hume, todo o conhecimento começa com a experiência. Hume fala de percepções para referir os conteúdos da nossa mente. Há duas espécies de conteúdos:

  • As impressões: são actos originários do nosso conhecimento e correspondem aos dados da experiência presente ou actual. Referem-se às nossas sensações externas (ao que vemos, ao que tocamos, etc.) e aos nossos sentimentos (paixões, emoções, desejos, etc.);
  • As ideias: são as representações ou imagens debilitadas, enfraquecidas, das impressões no pensamento. São como marcas deixadas pelas impressões, uma vez estas desaparecidas.

Exemplo:

Tenho a percepção deste automóvel. Recebo impressões como a cor, a forma, o ruído do motor, etc. Fecho os olhos e na minha mente continua a imagem do automóvel. A essa cópia enfraquecida da impressão original, dá Hume o nome de ideia.

Não há ideias inatas

A relação entre impressões e ideias significa que não há, para Hume, ideias inatas. Como todas as nossas ideias são cópias das impressões sensíveis, todas elas têm uma origem empírica. Uma pessoa que seja surda de nascença nunca conseguirá, segundo Hume, formar qualquer ideia do tipo musical porque nunca ouviu qualquer som musical.

Os conteúdos da mente

As percepções, impressões e ideias, apresentam graus de força. São simples ou complexas.

Impressões

  • Simples: Por exemplo, a percepção de um automóvel vermelho.
  • Complexas: A visão global de um povoado a partir de um ponto alto.

Ideias

  • Simples: A recordação de um automóvel vermelho.
  • Complexas: A recordação do povoado.

Tipos de conhecimentos

Conhecimento de ideias (relações entre ideias) – São conhecimentos a priori, que consistem em analisar o significado dos elementos de uma proposição. As relações entre ideias são proposições cuja verdade pode ser conhecida pela simples inspecção lógica do seu conteúdo. Por exemplo: “O quadrado tem quatro lados” é um juízo necessariamente verdadeiro e para isso basta analisar o significado de “quadrado”.

Conhecimento de questões de facto – São proposições cujo valor de verdade tem de ser testado pela experiência, ou seja, temos de “inspeccionar” o mundo dos factos para verificar se elas são verdadeiras ou falsas. Por exemplo: “Este martelo é pesado” é um juízo cujo valor de verdade não pode ser decidido pela simples inspecção a priori.

O conhecimentos de facto e a relação de causalidade

Os conhecimentos matemáticos e lógicos baseiam-se em relações de ideias, na análise lógica e no raciocínio dedutivo. Os conhecimentos de facto baseiam-se sobretudo no raciocínio indutivo e na relação causa-efeito.

Consideremos o seguinte enunciado:

Um determinado aumento de temperatura é a causa da dilatação de certos corpos.

O que entendemos exactamente por relação causal?

Por relação causal ou de causalidade entendemos uma conexão ou ligação necessária entre acontecimentos.

Um determinado aumento de temperatura A é a causa da dilatação de certos corpos B.

O que significa dizer que A é a causa de B, sempre que, em certas condições acontece A, acontece ou sucede necessariamente B. A produz necessariamente B, que este, sem aquele, não aconteceria, que a dilatação é produzida por determinado aumento de temperatura e que, sendo assim, sempre assim foi e sempre assim será. Como consequência da conjunção constante ou sucessão regular de A e de B, pensamos que, acontecendo A, não poderá deixar de acontecer B.

Mas será que temos experiência desta ideia de conexão necessária?

Quando dizemos que, acontecendo A, sempre acontecerá B, estamos a falar de um facto futuro, que ainda não aconteceu. É aqui que Hume diz que ultrapassamos o que a experiência – a única fonte de verdade dos conhecimentos de facto – nos permite. Com efeito, para Hume, o conhecimento dos factos reduz-se às impressões actuais e passadas. não podemos ter conhecimentos de factos futuros porque não podemos ter qualquer impressão sensível ou experiência do que ainda não aconteceu.

Como nasce então a ideia de uma conexão ou ligação necessária entre causa e efeito?

De tantas vezes observarmos que um corpo dilata após um determinado aumento de temperatura acontece isto: sempre que vemos acontecer um dado aumento de temperatura, concluímos, devido ao hábito, que certos corpos vão dilatar.

  • A constante conjunção e sucessão de A e B levam a razão a inventar uma conexão que ela julga necessária, mas da qual nunca teve experiência. A necessidade aqui é meramente psicológica.

O cepticismo de Hume não é radical. Hume pensa que não podemos deixar de acreditar na ideia de regularidade constante dos fenómenos porque, sem essa crença, a vida seria impraticável. É importante notar que Hume nunca pretendeu com a sua crítica afirmar que não há relações causais no mundo. Não negou o princípio Não há efeito sem causa. Unicamente afirmou que não podemos racionalmente justificar uma tal crença.

~ por goncasrato em 03/10/2010.

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