O racionalismo de Descartes

Descartes – Filósofo francês e matemático considerado o fundador da filosofia moderna, Descartes dá importância central à teoria do conhecimento ou gnoseologia.

Racionalismo – Costuma chamar-se racionalismo à corrente filosófica que atribui um valor superior à razão, defendendo que os nossos conhecimentos verdadeiros procedem dela e não da experiência ou dos sentidos. Descartes é considerado o expoente máximo do racionalismo da época moderna.

  • Descartes começa por dizer que recebeu muitas opiniões falsas e que se vai desfazer de todas as opiniões que erradamente dera crédito;
  • A intenção de Descartes é a de começar tudo de novo, de inspeccionar os conhecimentos transmitidos, ou seja, o conhecimento do seu tempo.

Questões que se colocam:

Nada satisfaz Descartes?

Descartes não é um filósofo que esteja desiludido com tudo, aliás o filósofo manifesta um grande apreço pelo conhecimento matemático. Para ele o conhecimento matemático é puramente racional, pois não depende da experiência, claro e distinto, de tipo dedutivo em que os raciocínios encadeiam-se de forma rigorosa.

Será que Descartes é céptico?

Não, Descartes não é céptico pois acredita que há conhecimentos claros e distintos, como por exemplo as matemáticas, para além disso, nunca diz que tudo é falso.

O que significa dizer “começar tudo de novo desde os fundamentos”?

Significa dizer que Descartes pretende submeter o saber da sua época a um exame radical, não aceitando nada como verdadeiro que não reconheça clara e distintamente como sendo verdadeiro.

A atitude de Descartes perante o saber do seu tempo é de desprezo absoluto?

Não, ao criticar o saber do seu tempo, Descartes não pretende dizer que com ele é que surge a verdade. A atitude de Descartes com o saber do seu tempo caracteriza-se em dois vectores:

  1. O conhecimento do seu tempo está assente em bases frágeis;
  2. O conhecimento do seu tempo está desorganizado.

Qual o objectivo de Descartes?

O objectivo fundamental de Descartes é uma profunda reforma no conhecimento humano. Para Descartes o problema do conhecimento do seu tempo não é que não haja conhecimentos verdadeiros, estes não estão é colocados por ordem e assentam em alicerces frágeis, pois as bases do edifício do saber são conhecimentos duvidosos ou falsos.

Dúvida – A dúvida não é um método, a dúvida é um instrumento metodológico porque é a forma de aplicar a primeira evidência, que identifica o verdadeiro do indubitável.

Para Descartes é conhecimento o que possuir as seguintes características:

  • Tem de ser de tal forma evidente, que o pensamento não possa dele duvidar;
  • Dele dependerá o conhecimento do resto, ou seja, nada pode ser conhecimento sem ele.

Descartes sabe que nem todos os conhecimentos recebidos são falsos, os conhecimentos matemáticos, por exemplo, são verdadeiros. Trata-se de separar o trigo do joio, o verdadeiro do falso, ou seja, é necessário derrubar o edifício do saber e aproveitar o conhecimento verdadeiro, aquele que não podemos duvidar.

As bases do conhecimento do tempo de Descartes eram frágeis porque:

  1. Se acreditava que a experiencia é a fonte dos nossos conhecimentos;
  2. Se acreditava na existência de um mundo físico, que só por si, constituí-a objecto de conhecimento;
  3. Se acreditava de que o nosso entendimento não se engana ou não pode estar enganado quando descobre conhecimentos verdadeiros.

Como avaliar a solidez das bases ou dos alicerces?

Submetendo o conhecimento a um exame impiedoso de forma a encontrar razões para duvidar da sua verdade, utilizando este critério duplo:

  1. Considerar como absolutamente falso o que for minimamente duvidoso;
  2. Considerar como sempre nos enganando aquilo que alguma vez nos enganar.

Dúvida hiperbólica: Consiste em identificar o minimamente duvidoso como falso. É assim chamada por ser exagerada. É uma forma de garantir que a crença a resistir seja absolutamente verdadeira.

Conhecimento verdadeiro para Descartes – É sinónimo de conhecimento absolutamente verdadeiro. Entre a verdade e a falsidade não há meio-termo: um conhecimento ou é absolutamente verdadeiro, sem razão para duvidar dele ou então, deve ser considerado como falso.

Os níveis de aplicação da dúvida metódica

Descartes inventou um método constituído por quatro regras simples. Este método ordena que se considere como falso o que não for absolutamente verdadeiro e evidente. Diz-nos para não aceitarmos como verdadeiro o que não for absolutamente indubitável. A dúvida é dita metódica e também hiperbólica.

O primeiro nível da aplicação da dúvida: Os sentidos enganam-nos

A crença de que o conhecimento começa com a experiência, ou seja, de que os sentidos são fontes seguras de conhecimento, é a primeira base dos conhecimento tradicionais que Descartes vai questionar e rejeitar como falsa. Os sentidos enganam-nos algumas vezes, como quando, nos dão a impressão de ser redondo o que é quadrado, verde o que é amarelo. Para Descartes não devemos acreditar naquilo que já nos enganou anteriormente.

O segundo nível da aplicação da dúvida: O mundo físico é uma ilusão

Descartes questiona a existência de uma realidade física independente do nosso pensamento. Descartes inventa um argumento engenhoso que se baseia na impossibilidade de encontrar um critério absolutamente convincente que nos permita distinguir o sonho da realidade. Há acontecimentos que, vividos durante o sonho, são vividos com tanta intensidade como quando estamos acordados. Não há uma maneira clara de diferenciar o sonho da realidade, pode surgir a suspeita de que aquilo que consideramos real não passe de um sonho.

O terceiro nível da aplicação da dúvida: O entendimento virado do avesso

Descartes vai pôr em causa aquilo que até então considerara o modelo do saber verdadeiro: conhecimento matemático. As matemáticas são produtos da actividade do entendimento e por isso constituem a dimensão dos objectos inteligíveis. O argumento que vai abalar a confiança depositada na matemática prende-se com o facto de o meu entendimento poder estar radicalmente pervertido, tomando por verdadeiro o que é falso e por falso o que é verdadeiro.

A descoberta de uma verdade absolutamente indubitável: "Penso (duvido), logo existo"

A aplicação da dúvida pôs em causa toda a dimensão dos objectos, quer sensíveis quer inteligíveis. nenhum objecto resistiu ao exame impiedoso da dúvida. Neste momento poderiamos dizer que reinava o cepticismo, contudo era uma conclusão precipitada. Há uma  verdade indubitável que se vai impôr. O acto de duvidar é um acto que tem de ser exercido por alguém, é necessário haver um sujeito que duvide. Logo, a existência de um sujeito é uma verdade indubitável: "Penso, logo, existo", pode ser transformada em "Duvido, logo, existo".

Características da primeira verdade:

  1. A primeira verdade é um alicerce inabalável, que apartir dela descobriremos um vasto conjunto de conhecimentos;
  2. É uma verdade puramente racional;
  3. É uma verdade descoberta por intuição;
  4. O "Cogito" vai funcionar como modelo de verdade;
  5. A primeira verdade diz-nos também que a essência do sujeito que duvida é ser uma substância meramente pensante.
  6. Ao mesmo tempo que descubro a minha existência como sujeito pensante, descubro que a alma é distinta do corpo;
  7. O Cogito corresponde ao "grau zero" do conhecimento no que respeita aos objectos físicos e inteligíveis,
  8. A primeira verdade é a afirmação da existência de um ser que é imperfeito.

A prova da existência de Deus como Ser Perfeito (não enganador)

Sei que sou imperfeito porque duvido. A condição necessária para considerar que duividar é uma imperfeição é a de que eu saiba em que consiste a perfeição. Só comparando as qualidades que eu possuo com a perfeição (que é Deus) é que posso dizer que eu, que duvido e não conheço tudo, sou imperfeito.

Existe um ser perfeito?

Descartes conclui que só o que é perfeito pode ser a causa da ideia de perfeito e que por isso Deus existe.

A fundamentação metafísica do saber: Deus não nos engana

No terceiro nível da dúvida, Descartes apresentara a suspeita sobre a possiblidade de um Deus enganador. Mas agora, provada a existência de Deus como ser perfeito, Descartes vai chegar à conclusão de que essa suspeita não faz sentido. Deus é omnipotente e perfeito e enganar é sinónimo de fraqueza.

O facto de Deus não enganar e de ser a fonte de todo o saber

O papel da veracidade Divina é duplo:

  • É a garantia das evidencias actuais, isto é, das que estão actualmente na minha consciência.
  • É a garantia das minhas evidencias passadas, isto é não actualmente presentes na minha consciência.  

A recuperação da existência das realidades físicas

  • A convicção da existência do mundo não e um conhecimento, mas uma espécie de crença, um sentimento. Mas bastante presente e intenso, no qual podemos confiar.
  • Há uma ligação entre corpo e alma muito próxima, e portanto temos noção da existência do nosso corpo e isto serve de evidencia á existência da realidade.
  • Sei que existo fisicamente e experimento interacções com outros corpos, mesmo não sendo o autor ou a causa destes outros corpos, mas eles causam sensações em mim, e se Deus não engana tenho de concluir que as coisas corpóreas existem.
  • Na veracidade divina o mundo não é um sonho.

~ por goncasrato em 03/09/2010.

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