Actos Ilocutórios

Assertivo: Acto de fala que o locutor realiza pela enunciação de uma proposição, com cujo valor de verdade se compromete em maior ou menor grau. Tal proposição pode, portanto, ser submetida ao teste do verdadeiro ou falso. Entram na categoria de assertivos verbos como «afirmar», «sugerir» ou «colocar uma hipótese», distinguindo-se entre si pelo grau de comprometimento do locutor.

Exemplo: “Parto para a Austrália na próxima semana.”

Directivo: Nesta categoria incluem-se actos que têm em comum, embora com matizações, a intenção do locutor de levar o interlocutor a fazer ou a dizer alguma coisa. Tendo em comum o facto de darem expressão a uma vontade ou desejo do locutor em levar o interlocutor a realizar uma acção futura, perfilam-se actos como «convidar», «pedir», «requerer», «ordenar», «suplicar» ou «avisar», embora difiram pela natureza própria de cada um. É importante salientar que, em relação a «pedir», «ordenar» obedece a uma condição preparatória adicional segundo a qual o locutor tem que estar numa posição de autoridade em relação ao interlocutor. As perguntas são uma subclasse de directivos, tendo em conta que o objectivo é obter do interlocutor a execução de um acto de fala.

Exemplo: “Quero esse trabalho terminado dentro de meia hora.”

Compromissivo: Acto de fala que, como o de «prometer», dá expressão a uma intenção do locutor, vinculando-o à realização de uma acção futura que poderá afectar o interlocutor de um modo positivo (no caso da promessa) ou de um modo negativo (no caso da ameaça). O conteúdo proposicional consiste na acção futura a que o locutor se propõe. Enquanto os actos directivos colocam o interlocutor sob uma obrigação, os compromissivos exercem essa obrigatoriedade sobre o locutor.

Exemplo: “Ligo-te amanhã.” [Prometo que te ligo amanhã.]

Expressivo: Acto de fala que, como o de «agradecer» ou «dar os parabéns», pretende exprimir um estado psicológico relativo ao estado de coisas contido no conteúdo proposicional da frase. Fazem parte do paradigma dos actos expressivos verbos como «agradecer», «congratular-se», «lamentar». Agradecer apresenta como conteúdo proposicional um acto passado feito pelo interlocutor em benefício do locutor que, por tal, expressa gratidão ou apreço.

Exemplo: “Lamento profundamente tudo o que te aconteceu.”

Declaração: Acto de fala que cria um estado de coisas novo pela simples declaração de que elas existem, caso em que dizer é fazer (criar a própria realidade). Tais declarações [ver exemplos] alteram o estado de coisas envolvente: alguém fica baptizado, alguém deixa de ser solteiro para assumir o estatuto de casado, por exemplo. Para que a realização dos actos declarativos seja bem sucedida é necessário que o enunciado, além de obedecer às regras linguísticas, surja inscrito numa específica instituição extra-linguística, como a igreja, o tribunal, o estado, dentro da qual o locutor e o interlocutor desempenham papéis sociais pré-estabelecidos (o padre perante os noivos, por exemplo).

Exemplo: “Declaro-vos marido e mulher.”

Declaração assertiva: Dentro dos actos declarativos circunscrevem-se, numa classe autónoma, os assertivos que, como o de declarar alguém inapto para o serviço militar, ou alguém excluído de um concurso, reúnem os objectivos ilocutórios de asserções e de declarações. Nestes casos, o locutor, que está investido de uma autoridade específica, é responsável pela tomada de decisões como as do árbitro num jogo de futebol ou um chefe de secção numa empresa.

Acto ilocutório indirecto: Num acto ilocutório indirecto, o locutor quer dizer algo diferente daquilo que expressa em sentido literal, contando com as capacidades inferenciais do interlocutor para o reconhecimento da sua intenção ou objectivo ilocutório. O enunciado «Importas-te de me passar o sal?», apesar do seu formato interrogativo (que poderia realizar um acto ilocutório de pergunta), deve antes ser entendido como um pedido (acto ilocutório indirecto). Para a desmontagem do mecanismo dos actos ilocutórios indirectos, o interlocutor recorre ao que Grice denomina implicatura conversacional, em que intervém um conjunto de saberes diferenciados, tais como os que se relacionam com as informações enciclopédicas/conhecimento do mundo (saber compartilhado), com o conhecimento relativo aos actos ilocutórios, com os princípios reguladores da interacção discursiva (princípio de cooperação, princípio de cortesia).

Exemplo: Será que vocês gostariam de vir passar o fim-de-semana a Lisboa comigo? – pergunta que realiza um convite.

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~ por goncasrato em 01/26/2010.

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